A importância da educação financeira: conhecimento, comportamento e liberdade de escolha.

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Denize Rocha

Terapeuta e consultora Financeira

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Você trabalha, recebe uma boa renda e cumpre seus compromissos. Ainda assim, ao olhar para suas finanças, pode surgir uma pergunta incômoda: “Por que meu esforço não se transforma na segurança que eu gostaria de ter?”

Essa distância entre ganhar dinheiro e construir tranquilidade ajuda a compreender a importância da educação financeira. Além de entender os números, precisamos reconhecer os hábitos, as emoções e as prioridades que orientam nossas decisões. Afinal, o dinheiro que sustenta a vida de hoje também precisa contribuir para a vida que desejamos construir.

O que significa ser educado financeiramente?

Ter educação financeira não significa conhecer todos os investimentos, acompanhar diariamente o mercado ou nunca enfrentar dificuldades. Significa desenvolver condições para compreender informações, avaliar alternativas e tomar decisões coerentes com a própria realidade.

Para isso, é importante entender juros e inflação, conhecer o custo de uma dívida, organizar o orçamento e avaliar os riscos de um investimento. Ao mesmo tempo, precisamos observar como decidimos: o que nos leva a comprar, por que adiamos determinadas escolhas e quais compromissos assumimos sem avaliar suas consequências.

Essa compreensão está alinhada ao instrumento de avaliação da OCDE publicado em 2026, que considera conhecimento, comportamento e atitudes como dimensões do letramento financeiro. Assim, saber e fazer são partes complementares do processo.

Entretanto, nem sempre o conhecimento se transforma em ação. Uma pessoa pode compreender a importância de poupar e, mesmo assim, não conseguir manter esse hábito. Por isso, a educação financeira também precisa olhar para o que dificulta colocar o aprendizado em prática.

Conhecimento ajuda, mas precisa chegar à vida cotidiana

A ciência demonstra que a educação financeira pode produzir resultados. Uma meta-análise publicada no Journal of Financial Economics, reunindo 76 experimentos randomizados e mais de 160 mil participantes, encontrou efeitos positivos, em média, tanto sobre o conhecimento quanto sobre os comportamentos financeiros.

Embora esse resultado não signifique que qualquer curso resolverá todas as dificuldades, ele mostra que aprender pode favorecer mudanças concretas. Para que esse aprendizado seja útil, porém, é necessário conectá-lo às decisões do cotidiano.

Compreender juros, por exemplo, ajuda a comparar propostas de crédito. Da mesma forma, entender os riscos contribui para avaliar um investimento, enquanto conhecer o orçamento permite rever compromissos e reservar recursos para objetivos importantes.

No Brasil, a pesquisa aplicada pelo Banco Central em 2023 encontrou uma pontuação de letramento financeiro de 59,6 em uma escala de zero a cem. Esse resultado evidencia espaço para ampliar essas competências e reforça a importância de iniciativas que dialoguem com as diferentes realidades da população.

Nesse processo, ensinar conceitos é fundamental. Mas compreender a relação de cada pessoa com o dinheiro também merece atenção.

A relação com o dinheiro também merece cuidado

Em minha atuação como planejadora e terapeuta financeira, considero essencial investigar o que acompanha os números. Isso porque as decisões financeiras acontecem em meio às experiências, às responsabilidades e às emoções de cada pessoa.

Uma compra pode atender a uma necessidade, mas também representar uma tentativa de aliviar um dia difícil. Já a dificuldade de conversar sobre dinheiro pode envolver medo de conflito, enquanto o adiamento do planejamento pode estar relacionado ao desconforto de reconhecer uma situação que precisa mudar.

Essas possibilidades devem ser compreendidas na história de cada pessoa, sem julgamentos ou conclusões apressadas. Além disso, é preciso reconhecer que dificuldades financeiras não decorrem apenas de escolhas individuais: renda insuficiente, instabilidade profissional, problemas de saúde e responsabilidades familiares podem limitar significativamente a capacidade de organizar a vida financeira.

Essa dimensão merece cuidado. Uma revisão sistemática publicada em 2025, que reuniu 94 estudos longitudinais, encontrou uma associação consistente entre dificuldades financeiras e piores indicadores de saúde mental. O resultado reforça a necessidade de tratar o tema com seriedade e acolhimento, sem reduzir o problema à falta de disciplina.

Por essa razão, minha abordagem integra organização financeira e compreensão dos padrões que dificultam a mudança. A partir desse olhar, o objetivo é construir escolhas possíveis e sustentáveis, considerando tanto os recursos disponíveis quanto a maneira como cada pessoa se relaciona com eles.

Ganhar bem não dispensa planejamento

Se as dificuldades financeiras exigem atenção, uma boa renda também precisa de direção. Embora amplie as possibilidades, ela não garante segurança financeira. Quando os gastos crescem junto com os ganhos e o futuro recebe apenas “o que sobrar”, pode ser difícil transformar anos de trabalho em patrimônio.

Para muitas pessoas a partir dos 40 anos, essa reflexão ganha força. Com a carreira consolidada, novas perguntas podem surgir: por quanto tempo quero trabalhar nesse ritmo? Como desejo viver daqui a dez ou vinte anos? Quanto das minhas escolhas depende de continuar produzindo a mesma renda?

É nesse ponto que o planejamento ajuda a transformar desejos e preocupações em decisões concretas. Para isso, orçamento, reserva financeira, proteção e investimentos precisam ser pensados de forma integrada, de acordo com os objetivos e as necessidades de cada fase da vida.

Na escolha dos investimentos, por exemplo, a rentabilidade é apenas um dos critérios. Também precisam ser considerados o prazo, os riscos, os custos e a possibilidade de acessar o dinheiro quando necessário.

Dessa maneira, o patrimônio passa a ter uma função clara: sustentar projetos, enfrentar imprevistos e ampliar a liberdade de escolha ao longo da vida.

Novas facilidades exigem novos cuidados

Além de planejar o presente e o futuro, precisamos desenvolver critérios para lidar com as ferramentas que fazem parte da nossa rotina financeira.

A vida digital tornou muitas operações mais simples. Entretanto, a facilidade de acesso não substitui a compreensão do que estamos contratando ou utilizando.

Antes de contratar crédito, por exemplo, é necessário avaliar o custo total e o impacto das parcelas no orçamento. Da mesma forma, antes de investir, precisamos entender o produto e verificar a confiabilidade de quem o oferece. Já os pagamentos rápidos exigem atenção à segurança e ao acompanhamento dos gastos.

Nesse contexto, a OCDE inclui o uso consciente e seguro dos serviços digitais em sua definição de letramento financeiro digital. Portanto, aprender sobre dinheiro também envolve desenvolver condições para utilizar essas tecnologias com cuidado e autonomia.

Por onde começar?

Diante de tantos aspectos, o primeiro passo é observar a própria realidade com honestidade e sem julgamento. Quanto entra? Quanto já está comprometido? Quais despesas se repetem? E o que costuma acontecer antes de uma compra que depois gera arrependimento?

Com essa compreensão, fica mais fácil escolher uma prioridade concreta. Pode ser avaliar as dívidas, organizar os gastos, iniciar uma reserva ou planejar a aposentadoria. Como tentar resolver tudo de uma vez pode tornar o processo difícil de sustentar, vale começar pelo que mais precisa de atenção neste momento.

A partir daí, estabeleça uma rotina possível: reserve um momento para acompanhar as contas, revise periodicamente seus objetivos e tome decisões compatíveis com o orçamento. Quando houver margem financeira, separar um valor previamente definido também pode ajudar a dar continuidade ao plano.

Ao longo desse processo, será necessário ajustar escolhas e reconhecer avanços. Afinal, a educação financeira ganha sentido quando transforma informação em escolhas que você consegue sustentar.

Organizar o dinheiro, portanto, é uma forma de reconhecer o que importa, cuidar do presente e criar condições para o futuro que você deseja.

Seu dinheiro está acompanhando a vida que você deseja construir?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 OCDE — instrumento de avaliação do letramento financeiro, inclusão e bem-estar, 2026.

2 Kaiser e colaboradores — efeitos da educação financeira sobre conhecimento e comportamento, 2022.

3 Banco Central — resultados da pesquisa brasileira aplicada em 2023.

4 OCDE — instrumento de avaliação do letramento financeiro digital, 2024.

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